visitante(s) soprando palavras ao vento




29.5.03




saudade de tua pena
tarciso...
conciso
concebedor deste espaço preciso
para palavras sem pressa
sem urgência de jorrar
pela precisão de saber
exatamente
o que falar...

CoRa soprou estas palavras ao vento às 11:15 PM
 















































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Sonho de outono



Eu sonho com um espelho - é outono
O espelho reflete
A solidão dos sonhadores
O espelho reflete
(A imagem, como num eco visual)
A imagem disforme
Remete
(À folhas secas coletivamente voando)
(E) ao mistério
(E) ao fim.

Pode o sonho trazer alívio da
realidade, quando a realidade
é um pesadelo - ou quando um sonho
parece ser real;

Pode um homem agir como
um animal julgando-se racional
- mas o que seria de um animal se agisse
racionalmente, desconjuntando a natureza;

Pode a metáfora conservar a
sua integridade quando usada para
mascarar a verdade - se a verdade
é que a metáfora é uma mentira;

Pode um sonho ser um homem
e uma metáfora ser um animal
- e ainda assim todas as coisas
ocuparem seu devido lugar.

Pode o sonho - na solidão
Refletir
No espelho - na imensidão
(Dos olhos dos sonhadores)
A imagem do mistério disforme
Repetir
O fim do outono para que retorne
O inverno e a neve
(Para que possamos juntos)
Ir ao inferno buscar o que nos pertence.
Possivelmente
a Serpente
sorridente
finalmente
- no fosso ardente -
diga, indecente,
veemente
que, novamente,
juntamente
estamos a sonhar.

(escrito sobre um poema da amiga Raelis)

visite o meu blog Areias ao Vento

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 10:40 AM
 


28.5.03

De Mim Mesmo ( Um Pouco )

Tenho um defeito, que às vezes me traz certas complicações, e incertezas também. Quando gosto realmente - já que ao longo dos tempos, o ser humano adquiriu a "habilidade" de criar simulacros disso também - de uma coisa, me apaixono por ela. Assim sou eu para com as artes marciais, a matemática, a música, a filosofia, a poesia, a literatura, a psicologia, a astronomia, a cosmologia, etc... o amor.
Amo o Amor. Por mais que doa, amo amar. Estou vivo, ( ao menos num certo nível, já que cheguei a filosofar que a inexistência plena é impossível ) mas viver não é preciso. Morrer também não.

Francisco Maximiano da Silva

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 1:00 PM
 

Sabedoria x Força

Nossos punhos só podem mudar uma pessoa externamente. Relamente, eles não podem mudar uma pessoa. Não é a força que se igüala à sabedoria, é a sabedoria que supera a força.

Francisco Maximiano da Silva

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 12:51 PM
 

Poema 3


De resto, nada mais importa.
O que importa, é
Saber o que é 3.
O que é três?
1 conjunto de todas as três
Coisas do Universo?
3 é um número.
O que é um número?
Uma abstração.
O que é uma abstração?
O humano é uma abstração. A abstração é humana.
O que é humano?
A Abstração. Um amontoado
De átomos de
Eras reencarnados, na
Forma que vos parece.
Uma abstração divina.

Francisco Maximiano da Silva.

*Obs.: Adoro poemas matemáticos.

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 11:23 AM
 

amorvirtual.com.br



Abro a caixa de e-mail e dentro só há pornografia paga. Quando você não vai até o prostíbulo, o prostíbulo vai até você.Decido mudar o programa: Solidão v.1.0

Preencho o formulário da agência virtual de encontros virtuais. Nota importante: o campo renda mensal é obrigatório. Sem renda mensal,sem mulher.Sem mulher todo dia, o dia todo sem mulher.

Uma mensagem instantânea chega, e nós conversamos.Perfil : Mulher, jovem,bonita. Realidade: mulher?jovem?bonita?

Converso no chat, ela sorri um sorriso repleto de sinais ;) mas desconfio que ela não seja o que parece (:{( .Pergunto se a estou chateando

Eu convido mas não acredito: ela entrou no meu site!Eu peço que não se preocupe, o site é seguro.

A sua webcam estava aberta diante das câmeras, ficamos nus. E quando nos beijamos, é eletroestática pura!

Recebo um e-mail dela: contatosuperficial@solidaomail.com.br. Respondo na linguagem do amor Homens Temem Mulheres Libertas. Trocamos cartas que não são de papel, com letras que não são as nossas, perfumadas com metal e silício.Uso palavras pasteurizadas retiradas de pacotes antológicos , frases recortadas do pensamento de grandes escritores.Só depois percebo que fui infectado pelo vírus do amor virtual: I Love You

Ela me envia uma foto de como gostaria que eu a visse, eu retribuo com um retrato do que eu gostaria de ser.

Ela me diz que o que sinto por ela não é real.Grito pelo microfone que me sinto virtualmente traído. Então expira a licença do nosso amor virtual: aquele que nunca existiu.Desviam-se os olhares(desligam-se as câmeras); não mais nos falamos(desconectam-se os microfones);não ouvimos mais um ao outro(sem volume nas caixas de som); nos mudamos para longe, viramos a página(vamos para outros sites); porém o coração continua a bater( a CPU ligada).

Atualiza-se o programa: Solidão v. 2.0...

Assim é o amor virtual: virtualmente nunca acaba, porque realmente nunca existiu.

visite-me em Areias ao Vento

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 2:19 AM
 


27.5.03

Neo e O Arquiteto - Matrix Reloaded

O Arquiteto - Olá, Neo.

Neo ¿ Quem é você?

O Arquiteto ¿ Eu sou o Arquiteto. Eu criei a Matrix. Eu estava esperando por você. Você tem muitas perguntas, e embora o processo tenha alterado sua consciência, você permanece irrevogavelmente humano. Portanto, algumas das minhas respostas você vai entender, e algumas delas não. De forma concordante, enquanto sua primeira pergunta talvez seja a mais pertinente, você pode ou não perceber que ela é também irrelevante.

Neo ¿ Por que eu estou aqui?

O Arquiteto ¿ Sua vida é uma soma de um resíduo de uma equação desequilibrada inerente à programação da Matrix. Você é a eventualidade de uma anomalia, a qual, apesar de meus mais sinceros esforços, sou incapaz de eliminar do que é, de outra forma, uma harmonia de precisão matemática. Enquanto isto continua sendo uma aflição a ser aplicadamente evitada, ela não é inesperada, e dessa forma não está além de uma medida de controle. E foi isso que, inexoravelmente, trouxe você aqui.

Neo ¿ Você não respondeu a minha pergunta.

O Arquiteto - Correto. Interessante. Você foi mais rápido que os outros.

(As reações de outros Predestinados aparecem nos monitores: Outros? Que Outros? Quantos? Responda-me!)

O Arquiteto ¿ A Matrix é mais antiga do que você imagina. Eu prefiro começar a partir do surgimento de uma única anomalia integral até o surgimento da próxima, e neste caso, esta é a sexta versão.

(Novamente, as reações dos outros Predestinados aparecem nos monitores: Cinco versões? Três? Eu tenho sido enganado também. Isso é mentira!)

Neo ¿ Há apenas duas possíveis explicações: ou ninguém me contou, ou ninguém sabe nada.

O Arquiteto ¿ Certamente. Como você está indubitavelmente captando, a anomalia é sistemática, criando flutuações até mesmo nas equações mais simplistas.

(Novamente, as reações dos outros Predestinados aparecem nos monitores: Você não pode me controlar! Dane-se! Vou matar você! Você não pode me obrigar a fazer nada!)

Neo ¿ Escolha. O problema é escolha.

O Arquiteto ¿ A primeira Matrix que eu projetei era naturalmente perfeita, era uma obra de arte, sem defeitos, sublime. Um triunfo igualado somente por sua monumental falha. A inevitabilidade de sua perdição é evidente para mim agora como uma conseqüência da imperfeição inerente a cada ser humano. Dessa forma, eu a reprojetei baseada na história humana para refletir, com mais precisão, os variantes aspectos grotescos de sua natureza. No entanto, eu fui novamente frustrado pela falha. Desde então, comecei a entender que a resposta me iludiu porque ela requeria uma mente menor, ou talvez uma mente menos limitada pelos parâmetros da perfeição. Dessa forma, a resposta se colocou no caminho de outra, um programa intuitivo, inicialmente criado para investigar certos aspectos da psiquê humana. Se eu sou pai da Matrix, ela seria, sem dúvidas, sua mãe.

Neo ¿ O Oráculo.

O Arquiteto ¿ Por favor. Como eu estava dizendo, ela se colocou no caminho de uma solução, segundo a qual aproximadamente 99,9% de todas as pessoas testadas aceitaram o programa, desde que fosse dada a elas uma escolha, mesmo se elas estivessem cientes dessa escolha em um nível quase inconsciente. Enquanto essa resposta funcionou, ela era obviamente defeituosa em sua essência, criando, dessa forma, a contraditória anomalia sistemática, que, se não for verificada, pode ameaçar o sistema em si. Portanto, aqueles que recusaram o programa, enquanto uma minoria, se não forem verificados, podem constituir uma probabilidade agravante de desastre.

Neo ¿ Isto é sobre Zion.

O Arquiteto ¿ Você está aqui porque Zion está prestes a ser destruída. Cada um de seus habitantes exterminados, sua existência inteira erradicada.

Neo ¿ Mentira!

O Arquiteto ¿ A negação é a mais previsível das reações humanas. Mas, tenha certeza, esta será a sexta vez que destruímos Zion, e temos nos tornado excessivamente eficientes nisto.

O Arquiteto ¿ A função do Predestinado é agora retornar à Fonte, permitindo uma disseminação temporária do código que você carrega, reinserindo o programa principal. Depois disso, você terá que escolher 23 indivíduos da Matrix, 16 mulheres, 7 homens, para reconstruir Zion. A falha no cumprimento deste processo vai resultar em uma cataclismática queda do sistema, matando todos que estão conectados à Matrix, o que, aliado à exterminação de Zion, resultará finalmente na extinção de toda a raça humana.

Neo ¿ Você não vai deixar isso acontecer, você não pode. Você precisa dos humanos para sobreviver.

O Arquiteto ¿ Há níveis de sobrevivência que estamos preparados para aceitar. No entanto, a questão relevante é se você está ou não pronto para aceitar a responsabilidade pela morte de cada ser humano neste mundo

(O Arquiteto pressiona um botão em uma caneta e imagens de pessoas de toda a Matrix aparecem nos monitores.)

O Arquiteto ¿ É interessante ler suas reações. Seus cinco predecessores foram projetados baseados em uma predicação similar, uma afirmação contingente que foi feita para criar uma profunda ligação ao restante de sua espécie, facilitando a função do Predestinado. Enquanto os outros viveram isso de uma maneira comum, a sua experiência é muito mais específica. Amor.

(Imagens de Trinity lutando contra o Agente do sonho de Neo aparecem nos monitores)

Neo ¿ Trinity.

O Arquiteto ¿ A propósito, ela entrou na Matrix para salvá-lo ao custo da própria vida.

Neo ¿ Não!

O Arquiteto ¿ O que nos trás, enfim, ao momento da verdade, onde a falha fundamental é finalmente expressada e a anomalia revelada tanto como um início e um fim. Existem duas portas. A porta à sua direita leva à Fonte, e à salvação de Zion. A porta à sua esquerda leva de volta à Matrix, a ela, e ao final de sua espécie. Como você adequadamente colocou, o problema é escolha. Mas nós já sabemos o que você vai fazer, não sabemos? Eu já posso ver a reação em cadeia, os precursores químicos que sinalizam o princípio da emoção, projetada especificamente para sobrepujar lógica e razão. Uma emoção que já está lhe cegando da simples e óbvia verdade: ela vai morrer e não há nada que você possa fazer para impedir isto.

(Neo caminha em direção à porta a sua esquerda)

O Arquiteto ¿ Esperança, a ilusão humana quintessencial, simultanteamente a fonte de sua maior força, e sua maior fraqueza.

Neo ¿ Se eu fosse você, torceria para não nos encontrarmos novamente.

O Arquiteto ¿ Isto não acontecerá.

( Do Fã Clube - Matrix Brasil )

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 1:56 PM
 

Devaneios

Uma vez ouvi que não existe amizade entre homens e mulheres.
Será mesmo assim?
Dois seres feitos para se completarem, que se encaixam em perfeita simetria,
não podem conviver juntos sem o tal do desejo?
Queria apenas uma amiga, que me ajudasse a desvendar
os mistérios das mulheres. Essas criaturas tão indecifráveis, se bem nós
homens também somos indecifráveis para elas. Por que isso?
Queria que quando estivesse junto dela ( minha amiga ), não precisasse estar
sempre "available", sempre sedutor, atraente, sempre...
Que do seu lado pudesse ser eu mesmo, sem medo do que ela estivesse pensando,
de ser rotulado, julgado, etc e tal.
Todas as pessoas são desejáveis aos olhos de todos, achamos homens e mulheres
interessantes, cada um com seus diferentes atrativos, sejam eles beleza,
personalidade, humor, inteligência; então, diga-me, por que não podemos
ser somente isso? Companheiros, confidentes, por que não podemos conviver
com o outro sem o tal do estigma homem-mulher para atrapalhar? Por que não
podemos dizer, "Eu te amo" a um amigo ou amiga sem sermos mal interpretados?
Por que não podemos amar um amigo ou amiga, tão somente como isso mesmo,
amigo ou amiga, e não homem ou mulher? Por que não podemos amar como um
avô de blazer vermelho? ( Rubem Alves: Navegando ).
Nossos impulsos instintivos, nossos genes egoístas, nossa formatação social,
- e é bem essa a palavra. Formatação - falam mais alto que nossa consciência,
transformando-nos em bio-robôs?
Bio-robôs e cidadãos formatados são o que a sociedade produz muito bem,
induzindo todos a sonharem acordados, sem o menor questionamento sobre os
ditos "valores" e imagens vendidas pela sociedade ( como na Matrix ). Mas
isto não vale para os que libertaram suas mentes. Certo?

Francisco Maximiano da Silva ( Adaptado do texto Devaneios da Nan )

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 1:06 PM
 

A suficiência garante a paz

Quando a humanidade vive em ordem,
Os cavalos puxam o arado;
Quando ela renega sua lei interna,
Os cavalos se preparam para guerra.
Não há pecado maior
Do que o excesso da ganância.
Não há mal maior
Do que querer sempre mais.
Não há maior calamidade
Do que a mania de sucesso.
Quem se conteta com o necessário
Vive numa paz impertubável.

( Lao Tsé - Tao Te Chig 46 )

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 1:00 PM
 

Divindade
( Tao Te Ching, poema 14 de Lao Tsé )

Quem quer ver a Divindade
Não a verá,
Porque ela é invisível.
Quem quer ouvir a Divindade
Não a ouvirá,
Porque ela é inaudível.
Quem quer tanger a Divindade
Não a tangerá,
Porque ela não tem forma.
Nenhum caminho parcial
Conduz à meta total.
Só na visão do Todo se encontra a Divindade
E então a superfície parece tenebrosa escuridão,
Equanto a profundeza parece luminosa superfície.
Nunca a Divindade é inteligível,
Ela permeia o Universo sem fim
E gira pelo Todo como se fosse Nada.
A Divindade é o Ser sem o Existir,
É o mais Insondável de todos o insondáveis.
Quem encara a Divindade não lhe vê a face.
Quem segue o Infinito o verá sempre fugitivo.
Só quem sintoniza com o Infinito,
Esse o conhece realmente,
Como os antigos o conheciam,
Eles, que sabiam que todos os visíveis
Nascem do Invisível.


Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 12:54 PM
 

Essa mulher

Ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

ela goza com o sabonete
não precisa de você
ela goza com a mão
não precisa do seu pau

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

que não sente a sua falta
e quando você chega em casa ela
não sente a sua presença
ela tem um travesseiro mais macio
do queo seu braço
e um acolchoado muito mais quente
queo seu abraço

ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

(Arnaldo Antunes)

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 12:51 PM
 




Ventos: me levem!
Daqui, para algum lugar onde os amores durem
Onde os animais sejam sempre bem tratados
Onde as crianças não tenham outra preocupação que não brincar
Onde os amigos nos reconheçam e nos decifrem pelo olhar
Onde a Natureza reine, absoluta
Onde a inveja, obsoleta caia em desuso
Onde os relógios trabalhem a nosso favor
e o tempo se comporte
e um abraço sincero conforte
onde a dor se evapore
e a paixão prevaleça.
onde ninguém se esqueça
de agradecer a Deus...

CoRa soprou estas palavras ao vento às 10:31 AM
 

The Phoenix's Poem

Nascido do silêncio,
cheio dele
Um concerto perfeito, meu melhor amigo,
Tanto pelo que viver,
Tanto pelo que morrer.
Se ao menos meu coração tivesse um lar.

Cante o que você não pode dizer,
Esqueça o que você não pode tocar,
Apresse-se para mergulhar em olhos bonitos,
Caminhe dentro da minha poesia,
esta minha carta de amor para você.

Nunca suspire por um mundo melhor.
Já foi composto, tocado e cantado,
Cada pensamento deste mundo.
É a isto que chamam destino?
Tudo o que eu desejo para a noite, é tê-la.

Escrevi para o eclipse, escrevi para a virgem
Morri pela Bela, aquela no jardim de concreto,
Criei um reino, busquei sabedoria.
Falhei em me tornar um deus.

Nunca suspire por um mundo melhor...

Se você ler esta linha,
Não se lembre da mão que a escreveu,
lembre-se apenas do verso.
O choro de um poeta não é de lágrimas,
Por isso eu tenho esta força,
E tem se tornado a única força em mim.
Lar confortável, o colo da mãe
uma chance para imortalidade,
onde ser querido se tornou uma emoção
que eu nunca conheci, exceto de minha mãe.
O doce piano escrevendo minha vida.

Me ensine paixão, pois eu temo que
jamais a vivenciarei,
Me mostre amor, me abrace,
Tanto mais quanto queira.
Me desculpe,
O tempo vai dizer ,
Se foi tudo vergonhoso ou em vão.

E você... Eu queria não sentir mais por você.
Amá-la, é matar-me um pouco.

Eis o que sou,
Uma alma solitária - uma fênix -... Uma alma do oceano, Um lobo sem matilha.
"Quando o homem está ciente de
Sua limitação,
Não há perigo".
( Adaptado de Dead?s Boy Poem, do Nightwish )

"Nem sempre a fênix que renasce das cinzas é a semelhança da fênix que se tornou cinzas. Assim, Eu sou."

Francisco Maximiano da Silva.

Francisco M. Silva soprou estas palavras ao vento às 10:29 AM
 


26.5.03

Vou voar



Voar é quando vou pelo ar;
imaginar é voar sem sair do lugar.
Você é o ar que quero respirar.
Sobrevoar, mais que voar
é por cima de algo pairar.
Revoar é juntamente voar
Como um pássaro que migra
Só para, depois, voltar ao mesmo lugar.

visite Areias ao Vento

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 2:25 AM
 


25.5.03

Um Mau Aprendiz de Poeta


Rimar e amar,
severamente não
são artes minhas.
Horríveis são estas linhas.
Minh'alma é sem calma.
Calma minha alma, calma.
Calma, alma sem calma.

Francisco Maximiano da Silva

Bia soprou estas palavras ao vento às 4:42 PM
 

Do sentimento



Não há explicação para um sentimento, quando ele nasce e passa a fazer parte dos nossos dias.
Ele está ali, presente, fazendo-se sentir a cada movimento do diafragma no movimento de inspirar e expirar.
A cada abrir e fechar dos olhos, no milésimo de segundo em que se faz a escuridão total para logo depois descortinar-se a luz.
Coabita com sonhos e pesadelos, obstinado e indômito, ele é o rei.
Está presente em cada palavra dita, e quando não, insurge ditador, impondo-nos sua lei.
A lei dos que não têm lei. A lei dos que riem, e cantam, e dançam, e choram, e vivem.
Não , não há explicação. Mas ele vive, e contrariando medos e expectativas, ele é real.
Não importa o que se diga, ele é.
Não importa como se o chame, ele existe.
Ele está ali.
Ele é você.
E você não pode fugir...


Bia soprou estas palavras ao vento às 4:42 PM
 


24.5.03

Motel palácio




A rádio na madrugada deixa de tocar rock para tocar música de motel.
Alarmes soam ao longe... na rua, uma viatura da polícia. E eu não posso dormir, eu só fico aqui, eu fico só aqui. Só aqui.
Pego algumas fitas cassetes. Modelo ultrapassado, a forma superada. Mas não o que elas têm a dizer. Algo em comum comigo?
Palavras ditas, inauditas, ecoam na memória. Coincidem com a música que toca,


Ela me pergunta: "se você é tão esperto, porque não é médico? e eu respondo "porque sou esperto".
Numa roda de amigos, eu provoco:" já fui ao motel mais vezes que todos aqui juntos".Eles duvidam, eu explico que trabalhei sete meses num motel.


Bocas que se beijam são bocas que se calam. Olhos então se fecham e nada vêem: o amor cega a razão. As mãos se entrelaçam como que querendo soldar a relação; mãos dadas não trabalham, nada escrevem. Somente as musas distantes inspiram .


Ela arrumou um emprego e não me deu endereço. Eu apareço lá, do nada, de onde vim. O nada que eu sou para ela. "Como você me descobriu aqui?". "Da mesma maneira que descobri as suas omissões e mentiras" foi a resposta que engoli mas não dei.


Corpos que se movem fazendo amor não se locomovem. Vem e vão, vão em vão. Para um lugar que nunca chegam porque nunca saíram do lugar.


Eles me dizem que o passado dela é sujo, e que fotos comprovam os seus erros. Eu respondo que a única mulher confiável é aquela que sabemos não ser.


O calendário é um triste lembrete de que as contas vencem mensalmente. Elas nos vencem mensalmente.E no fim das contas, só haverão contas.


Eu esqueço do aniversário dela. Ela não me perdoa. Nem eu. O que ela não sabe é que eu esqueço do dela, assim como do meu. E afinal de contas, o que importa não é quando, mas se você se lembra. Aniversários são contas que vencem anualmente e eu estou sempre em débito.


Traições são ações mentirosas. Tentativas de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tempo perdido, quando há flagrante.


É uma madrugada chuvosa, estou defronte ao prédio dela. A princesa trazida numa carruagem: o carro de Hermes mostrando a mim toda a verdade sobre a vida. Atrevida!
Ela diz que nunca atrapalharei o seu novo romance. Mas caminhadas deixam rastros: ponho a mão no interior da bolsa aberta e um cartão indica o caminho até o caçador que virou caça.


O tempo passa, a noite avança. Quem espera a noite passar sozinho, sempre alcança um amanhecer triste.


Ela me diz que se não a quero, é porque não sou homem. Eu respondo que, para ela, então realmente eu não sou homem.


Baladas na madrugada, letras insensatas rimando sem métrica como fundo inspirador para casais no fundo do poço desesperador do sexo, num motel feito para ser um palácio à beira da estrada ,onde eu gerencio sozinho as minhas lembranças.


visite Areias ao Vento

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 7:02 PM
 

vertigens

A minha boca anseia o sabor do mel
Mercê do gosto amargo que padece
Sede e fome - lado-a-lado
Sem falar no vazio desse olhar vagabundo
Procuro alguma tez macia pra tocar
Sentir o seu calor
Trazer unguento à minha nostalgia
Que ainda não é dor
Apenas acre fantasia
Ferindo fundo sem magoar
Não deixa cicatrizes
Mas causa vertigens e estertores
Em minha face impassível
No espelho mudo a se mirar
Mas lá não vejo nada
Porque não há ninguém
Só uma casca transparente
De um viajante ausente
E tolamente só...

tarciso soprou estas palavras ao vento às 5:54 PM
 

As asas de Ícaro



Asas à imaginação dos homens de criação;
asas nos pés, aos mensageiros dos deuses;
asas de aço àqueles que lutam pela nação;
asas nas costas dos homens que são bons;
asas mesmo no chão: há carros que voam;
asas, dizem, criam-se naqueles que se vão;
E asas de liberdade aos que se aposentam;
Mas só há asas no coração dos ases da aviação.

visite Areias ao Vento

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 3:10 AM
 


23.5.03

Anjo Caído

Primeiro a ação:
Rebenta as asas,
motivação não acha o freio
Despenca aos ares, nenhum apoio
chegou ao chão
partindo ao meio

Primeira mão:
"Morreu tão cedo"
Inspiração lhe explode o peito
A foto omite, não há maquiagem
um corpo oco, não tem recheio

Sensacional
O texto explora
Perde a razão quem viu primeiro
Quem dá a mão a palmatória
Nega a si o tempo inteiro

A luz que pisca
O povo assiste
Não há notícia e é o que basta
virada a página, saí perdendo
Perdi meu anjo
a vida
a farsa

Marcelo Soares

Camafunga soprou estas palavras ao vento às 12:02 PM
 


20.5.03

Provérbios do Paraíso




Quando uma criança tem três meses, já tem um ano, quando tem um ano, tem um ano e nove meses.
Quando a verdade é sabida, a mentira não engana.
A razão está na cabeça e nela está o cérebro, emoção está no coração e ele está no peito, sensação está no ventre e nele estão as vísceras.
A solidão é o mesmo que distância, ninguém está sozinho, apenas distante.
Todo mundo não é todo mundo, todo mundo é todo um mundo.
Meu é o mesmo que seu: o meu suor é o seu nariz, a minha boca é o seu ouvido, a minha mão e dedos são o seu tato e arrepio, o meu olhar é você sendo visto, a minha violência é a sua dor, o meu convexo pênis penetrando é o seu côncavo vagina penetrada, porém o meu filho não é o seu filho: é o nosso filho.
Procure-me em você que você se encontrará em mim.
Se eu sou o início de você, você é o fim de mim.
Se estamos um frente a frente com o outro, o meu direito é o seu esquerdo, o seu esquerdo é o meu direito o que para mim é correto, para você é incorreto, o que para você é correto, para mim é incorreto porém eu vejo a minha imagem nos seus olhos e você vê a sua imagem nos meus olhos e no tornamos infinitos em nós mesmos.
Quando eu estou atrás de você, o meu direito é o seu direito, o seu esquerdo é o meu esquerdo e tudo está certo mas como não podemos olhar olhos nos olhos, então temos que confiar um no outro.
Nenhuma pessoa almejaria o Paraíso se não tivesse medo do Inferno, portanto o Inferno é o caminho mais rápido para o Paraíso .
Não existiriam presídios se não houvesse presidiários, mas também não haveria presidiários se não houvesse presídios nem existiriam criminosos sem o crime e não existiria crime sem criminosos .
Deus é o conjunto de eus.
Nada pode ser dito que não exista no vocabulário, então nada de novo pode ser dito portanto não é preciso dizer nada pois tudo já foi dito.
Quando algo novo é dito , é porque foi criado.
O surdo não ouve o que ele mesmo diz nem o que lhe dizem os outros mas ele pode ver.
O mudo ouve o que lhe dizem e não pode responder mas ele pode ver.
O surdo - mudo nada ouve ou diz mas ele pode ver.
O cego não se vê ou aos outros , os outros o vêem mas ele pode falar e ouvir.
Se o surdo, o mudo e o cego caminhassem juntos teriam muito a ganhar.
Para alguém ser sábio é preciso que haja ignorantes, mas para que haja ignorantes não é preciso um sábio.
Sábio é aquele que sabe o que sabe: que ele sabe o que não sabe.
Ignorar o que se sabe é ser ignorante e ser ignorante é ignorar o que não se sabe.
Saber o que se ignora é ser sábio e ser sábio é saber o que se sabe.
Eu sou você para você , você é você para mim, você é eu para você.
É possível se perder fora de você mas só é possível se encontrar dentro de você .
Quando você se encontra em mim eu entendo(amo) você e quando eu me encontro em você, você me entende (ama) e quando nós nos encontramos em nós, entendemos(amamos) que somos um só nó, nós mesmos.
Procure-se em mim e se encontrará (junto) comigo em você mas se você se procurar em você se perderá de mim e se encontrará(só) consigo.
Eu sou o Deus em vocês e vocês são os eus em mim.

Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 1:36 AM
 

Sonhos


Passeei pelos teus sonhos
E encontrei teus pensamentos
Sussurrei segredos ao teu ouvido
Demorando-me o suficiente para ouvir o teu gemido...
Pude sentir sua respiração ofegante
Os movimentos involuntários enquanto me buscava entre os lençóis
Deixei meu beijo, e o meu desejo
E um pedaço de história que não foi vivida, apenas sonhada...

Bia soprou estas palavras ao vento às 12:32 AM
 

Anjos existem?



Seu nome era Aparecida. Cida, como era conhecida pelos amigos.
Os cabelos cacheados, um sorriso branco de dar inveja, mulata que ela só.
Nega do cabelo ruim, como ela mesma dizia.
Cida era aquela pessoa iluminada, que deixava um raio de sol por onde passava.
Faxineira na grande companhia onde eu era recepcionista, passava o dia subindo e descendo as escadas com a vassoura
e o balde nas mãos, e um sorriso largo estampado no rosto moreno.
Não terminara o ginásio, mas se orgulhava de fazer contas "de cabeça"e sem contar
nos dedos.
Fazia sua fézinha no jogo do bicho, todo santo dia.
E quase sempre ganhava. Nunca mostrava o jogo para ninguém, pois dizia que "dá azar e vai gorá!!".
Cida tinha a sabedoria do mundo, aquela que a vida lhe deu ao longo dos seus 45 anos.
Tinha sempre uma palavra amiga, um gesto de carinho para todos.
E todos reconheciam seu valor devolvendo-lhe os agrados e os mimos.
Não me lembro de tê-la visto com o semblante fechado ou triste. Nunca.
Se chovia estava feliz pela chuva. Se fazia sol estava feliz pelo calor.
No seu aniversário todos se reuniram e lhe deram de presente o rádio/toca-fitas
que ela tanto queria "Pra gravá as música bonita e dançá com meu nego!"
No natal, na festa de confraternização, Cida não apareceu.
Nem depois do Ano Novo, na primeira segunda-feira do ano.
Era a primeira vez que ela faltava em quase 2 anos de serviço.
Ela não apareceu na terça, nem tão pouco na quarta.
A empresa prestadora de serviços de onde ela era funcionária não tivera notícias suas.
A vizinha contou que não a via já há quase uma semana, e o barraco estava
fechado desde a última sexta-feira antes do ano-novo. Mas prometeu:
- Vou conseguir o telefone de onde a irmã dela trabalha!
Sexta-feira chegou e finalmente consegui falar com Neusa, a irmã.
- Cida sumiu! - disse ela com a voz embargada pelo choro.
- Deixou um bilhete... e sumiu.
- E ela não disse para onde ia? Porquê fez isso?
- Não. No bilhete só tava escrito assim: "Meu nego foi embora e eu não quero mais viver!"
Não levou nada consigo. Nem roupas, nem pertences pessoais. Nada.
Tudo em seu barraco permanecia intocado. Cida não tivera filhos, por opção.
- Filho não é pra mim não! Deixa pra quem leva jeito!
Diz a irmã que a polícia não deu muita esperança e
nunca mais tivemos notícias dela.
Até hoje, quando lembro das suas gargalhadas gostosas e
seu olhar enternecido,
Acredito que Cida não era uma pessoa comum como eu, como os outros.
Se anjos realmente existem, então ela era um anjo.
E a julgar pela saudade que deixou, sua missão entre nós foi mais que cumprida...
.........
23/10/2002

Bia soprou estas palavras ao vento às 12:20 AM
 


18.5.03

Havia dor



Havia dor pairando nos ares.
Cidades arrasadas por bombas.
Havia sangue por sobre a hera,
tingidas de rubro as pombas.
Os mares tomados pela guerra.
O aviador levou paz aos lares.
A aviação vingou nossa terra.

Pois em tempos de paz, somos
Alvas columbas nos céus azuis.
Outrora aves de rapina fomos
as garras de aço no firmamento.
O rugir das turbinas, que ouvis
eleva um lamento alto,cinzento.

O espaço aéreo um lar, nuvens são casas.
Desde meninos, o sonho de voar a crescer.
Nos aviões, braços se convertem em asas.
Homens, como Ïcaro haverão,verão descer.

Um dia batererão asas no horizonte bonito.
Mas não se diga enfim, o fim:e sim infinito.

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 2:02 PM
 


17.5.03




Ínfima

Me encolho se não há espaço.
Dou um jeito de caber...
Tem gente que espirra na tampa
tem gente que jorra
tem gente escorre e transborda...
Eu pingo
Pingo palavras
Uma
a
uma...
E respingo
e
mo
ções...

CoRa soprou estas palavras ao vento às 12:06 AM
 


16.5.03

O jogo dos sete erros



Silêncio.
Veja tudo, ouça tudo, mas não fale nada.
A palavra é o tropeço dos tolos, o silêncio é a arma dos sábios.
Nem tudo o que parece morto realmente está. Nem todos os cegos são incapazes de enxergar.
Nem tudo o que parece inanimado é sem vida. Nem todos os mudos são incapazes de falar.
Nem tudo o que parece silencioso é sem eco. Nem todos os trovões podem ser ouvidos.
O jogo da morte contém sete erros, o inteligente os reconhecerá. O sábio não os apontará.
A família educa, a escola ensina, o templo guia,a rua corrompe, a polícia prende, a justiça julga, a prisão contém.
O caminho do crime leva ao beco do castigo...

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 1:09 AM
 


15.5.03

Vou abrir um parêntese para uma poesia da minha querida madrinha de blog, a Li.
É um dos meus favoritos, e quando em vez me pego relendo. Parece que me traz um certo alento ao coração. Um conforto que vem não sei de onde, e que eu, definitivamente não sei explicar.

...............................

CARNE DE PESCOÇO

(eliane stoducto)


Gosto dos malucos, doidos, desgraçados
exagerados, tristes, apaixonados
que praticam um suicídio tão diário
por sentirem tanta sede e gana de viver

Gosto dos que crêem na própria insanidade
por saberem-se humanos, limitados, miseráveis
e com isto exercitam a humildade
conscientes de estarem aprisionados
nesta pobre casca humana até morrer

Não gosto de ares de superioridade
(os parâmetros são tênues e precários!)
não concedo a ninguém autoridade
- Oh, esses deuses e deusas sectários -
pontificando sobre a vida e o que fazer

Pois na minha prisão de carne e osso
sou única, sou livre, sou colosso
sou meu anjo e meu algoz, fora-da-lei
sou coisa feita e carne de pescoço.
......................

Bia soprou estas palavras ao vento às 10:25 PM
 


13.5.03

O silencio divino e o divino silêncio



Penso que muito já foi dito e escrito. Acredito que o silêncio fale mais do que as palavras. Creio que o pensamento seja mais pleno de conteúdo do que as palavras. Estou certo de que o pensamento treinado para filosofar tenha uma clareza de expressão maior do que o pensamento vulgar. Estou falando a verdade quando digo que o pensamento sussurrado, aquele quase não-pensamento seja a força mais poderosa do universo. O não-pensamento é o poder divino puro. É a música ambiente do universo. É o silêncio divino.
O silêncio divino é o silêncio da onipotência, é o risco do vir a ser pleno de verbos no infinitivo atemporal prestes a serem conjugados criando mundos.
O silêncio divino é mais do que um silêncio contemplativo é como estar trancado num quarto escuro com uma enorme fera desconhecida: você sabe que ela está lá, você sente o seu calor, ouve a sua respiração, intui a sua ferocidade. Mas nada pode fazer porque você é feito, é feito de...é defeito.
A solidão é a companhia divina, o medo é a coragem divina, a ausência é a presença divina a estática é a dinâmica divina.
Saiba que o saber existe para ser sabido e a ignorância existe para ser ignorada . Saiba o que deve ignorar, mas não ignore o que deve ser sabido:
O melhor uso que se faz das mãos é a carícia, das bocas o beijo, dos olhos, o olhar . A melhor posição é deitado, a melhor companhia é acompanhado.
O melhor uso que se faz da palavra é a escrita, o melhor uso da escrita é o livro e o melhor uso dos livros é propagar a verdade.
O melhor uso que se faz da beleza é o agradar. O melhor uso do agrado é encantar o melhor uso do encanto é elevar e elevar é encontrar-se com Deus.
As mãos que acariciam um livro , abrem-no e as suas folhas revelam a beleza da verdade na palavra escrita, a palavra muda grafada nas páginas:o silêncio divino das escrituras.
Verbos existem para formar orações, lábios para deixarem escapar as palavras articuladas pelas línguas que falam as palavras contidas na páginas dos livros. O paladar degusta as palavras, os ouvidos ouvem o que sai da própria boca, que quer que venha a sabedoria. A sabedoria da genética, hereditária, transmitida de pai para filho, através da tradição, a tradição que é oral. O som da palavra divina é o som oral acompanhado da verdade, o som do encontro com Deus.

Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 1:15 AM
 


12.5.03

Esses cabeludos...

Foi no banco (tipo assim, do Brasil) a mãe e o filho cabeludo que, ao chegarem na porta giratória com detector de metais, a mãe, já de saco cheio de ter que andar acompanhando o caminhar esquisito do filho carregando as sacolas, passa na frente. O filho, distraido entra junto mas percebe o erro e tenta voltar. tranca na porta. Corpo para um lado cabeça pro outro. A mãe força a porta xingando o guarda alegando que não está armada e que aquilo era uma humilhação. O cabeludo já roxo consegue se livrar da porta e retorna pra parte de fora do banco. O guarda explica para a mãe:
- Pode passar senhora, a porta trancou por causa do cabeludo que entrou junto.
A mãe volta-se para o filho e diz:
- Além de cabeludo andas armado agora!?


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"Não há quem tenha visto um certo lugar
a não ser em um certo tempo.
Nem um certo tempo
a não ser num certo lugar
."

Hernam Minkowky


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Parabéns Mães!
Não só por ontem,
Mas por toda vida.

Antonio Esperança

soprou estas palavras ao vento às 7:46 PM
 

Lua Cheia

(eliane stoducto)


Nas madrugadas insones de verão,
montada em negro corcel, viajo rumo ao passado.
Deliro, ardo em febre. Me apunhalo.
Me afogo em frios suores e,
depois, choro pela vida desperdiçada
como o vinho entornado
nas mesas de tabernas ordinárias
e chopes não terminados, levados
por apressados garçons mercenários.
Choro por minha polidez medíocre e bem comportada,
pelo tolo acato às convenções institucionalizadas,
pelo horrível aprendizado de engolir sapos.
E choro e uivo e me debato.
Afinal, é lua cheia...


Li Stoducto soprou estas palavras ao vento às 4:29 AM
 

Em algum lugar



Em algum lugar algo está para começar.Noutro, algo está para terminar. Há crianças nascendo, umas brincando, algumas morrendo.Num lugar um batismo, em outro uma extrema-unção; em um o casamento, noutro a separação; um abismo, uma elevação. Num lugar há algo a se cultivar, noutro o que se ceifar. Aqui é verão quente, acolá é inverno frio; ali é meio-dia, lá é meia-noite; numas paragens há alegria e fartura, noutras dor e fome.
Tudo tem a sua hora e lugar. Cinzas no cinzeiro, velas no candelabro, chaves no chaveiro, folhas pelo ar, lábios nos lábios, olhos nos olhos, pés no chão, cabeça nas nuvens. Em algum lugar, algo está por terminar: um amor, uma mágoa, uma sinfonia, um quadro, um parto, uma obra, um assalto, uma estrada, um sofrimento. Muito tempo é perdido tentando economizar tempo, muitas coisas são perdidas no afã de se encontrar outras.
Diversos eventos simultâneos estão acontecendo: as pessoas e palavras estão se cruzando; uma flor está nascendo e outra está morrendo; uma canção está se iniciando, outra está terminando; uma vela se acende, outra se apaga; uma mão agride, outra afaga;uma língua fala, outra beija. E coincidências também ocorrem: duas pessoas que se amarão estão se cruzando na hora e lugar corretos; um projétil disparado não feriu o seu alvo e atingiu o peito inocente posto no lugar errado na hora errada. Um raio caiu sobre alguém e não sobre a árvore. Um grito berrado, uma canção cantada, um encontrão esbarrado um desabamento caído, um desabafo vomitado, um aplauso batido, um suicídio matado, uma carícia leve.Um sino badalando e um badalo arrancado; neve caindo e virando água, água evaporando e virando neve.
Muitas coisas invisíveis estão se sucedendo e você não está vendo: fadas douradas voando pelos bosques, gnomos brincalhões correndo pelos jardins, mundos nascendo no cosmo, estrelas se consumindo nas galáxias, almas vagando no umbral.Evoluções no mundo interno de alguém, revoluções no mundo externo que é de ninguém.
Em algum lugar do passado algo está escondido: um roubo ousado, o verdadeiro assassino, o pai biológico, um relógio de algibeira perdido, um fóssil enterrado.No futuro tudo pode acontecer: em alguns lugares, um terremoto; noutros, um maremoto.Uma descoberta sem igual, uma releitura genial, uma guerra intestina, uma restauração miraculosa uma anistia concedida, um perdão aceito.
Mas será que n¿algum lugar em meio a tantos no tempo e no espaço, há lugar para a paz?


Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 12:41 AM
 


10.5.03

FRANCISCO NOS OLHOS




Francisco, não de Assis mas de Holanda. Francisco nos olhos azuis. Francisco que canta a canção dos olhos: Chico. Ele estava à toa na vida e compôs canções que o Brasil inteiro cantou. O homem que contava dinheiro parou, o velho fraco, o pivete, o malandro, a moça feia, o faroleiro que contava vantagem, a namorada que contava estrelas, todos pararam para ouvir.

E o que será que ouviram? Ouviram uma canção , que será uma declaração de amor e outra igual nunca haverá. Cantada por um cantor e compositor que igual não há e nunca haverá. A canção que fez o malandro, os pigmeus, a mulata, o nego maluco, o rei de ramos, o corsário do rei e os napoleões do sanatório dançarem. A canção que não pára de tocar como uma roda que não pára de girar. Iolanda não pára de rodar, João Gilberto, Caetano, Gil, e Betânia e Vinícius onde estiver não param de rodar pois a roda viva não pode parar .

Com toda a Brahma, com todos os jogos de futebol, com todos os discos e livros, com tudo o que acontece no Brasil, que só Deus pode explicar, a gente continua ouvindo a vida que o Chico está a cantar.

Na cidade dos artistas, a cidade ideal onde há a pousada do bom barão, o grande hotel, e moram Beatriz, Rita, Tom, Dr. Getúlio, Iracema que voou, Lola, Madalena que foi pro mar, Maria e Nicanor, Pedro pedreiro, Sílvia, Teresinha triste, gente humilde. A cidade cantada por Chico é a feliz cidade, a mais bonita, a do sonho, a cidade do bom tempo, onde há a bolsa de amores, no morro dois irmãos, onde todos estão cantando no toró a cantiga de acordar como um samba de adeus, um dueto cantado com açúcar e com afeto servindo para a ciranda da bailarina, carioca, Cecília, Carolina dançar no chão de esmeraldas onde passa uma cobra de vidro sob a lua cheia da meia-noite de verão. Ao Meio - dia, meia-lua, não sonho mais na noite dos mascarados, a outra noite, quando o circo místico embalou o meu suburbano coração de tanto amor, tantas palavras, tanto mar, tanto amar, todo o sentimento, uma menina, um novo amor que começa com uma canção inédita, e depois termina com uma canção desnaturada, um chorinho, último blues, umas e outras num bar qualquer.

-- Ao despertar no primeiro de maio, na casa de João de Rosa, ouço uma palavra de mulher:

-- Vai trabalhar vagabundo. Se eu fosse seu patrão na linha de montagem...

-- Logo eu? Cala a boca, Bárbara! Tira as mãos de mim, você não ouviu uma palavra, biscate, galinha, o amor já passou. Vai passar todo o sentimento.

Desencontro, desalento, desencanto, a despedida, como um samba de adeus:

-- Tchau, tchau.

-- Pois é, você vai me seguir, basta um dia, outra noite, o cotidiano, é tão simples...

-- Você não ouviu, imagina só, todo o sentimento, romance, nosso bolero, qualquer amor é um sonho impossível.

-- Mil perdões, fica, meu namorado, eu te amo.

-- Mulher, vou dizer o quanto te amo



Quando o carnaval chegar, tem mais samba, todos juntos na verdadeira embolada para todos, desembolada benvinda pelas tabelas. De volta ao samba, samba do grande amor, de Orly pra Vinícius, samba e amor...qualquer amor é uma corrente, um cordão, este é um samba que vai para a frente de todas as maneiras. Sonho de um carnaval, sonhos sonhos são, sem fantasia, sobre todas as coisas, sob medida, sol e chuva.Vai levando a vida, viver do amor ouvindo a valsa brasileira, dos clowns, valsa rancho na veneta do meu violão.

Olê, Olá, onde você estava pedaço de mim? Morena de angola, de doze anos, meu refrão na flor da idade, dos olhos dágua, maninha, maravilha paroara, pássara, passaredo, partido alto. Cadê você, bem querer, a mais bonita, a moça do sonho, a rosa, a noiva da cidade, que fez soar a opereta do casamento felicitá. Um tempo que passou, essa moça tá diferente... rabichada...quem te viu e quem te vê. Ela é dançarina, está na foto da capa, num retrato em preto e branco, e tem uma tatuagem. Ela e a sua janela e se ela desatinou é porque é dura na queda, será que Cristina volta? Não, então deixe a menina, meu caro amigo, essa passou.

Ela é a bela e a fera sou eu que tive um dia de cão, fiz uma ode aos ratos, mas boi voador não pode, ao sabiá, ao jumento, à ostra e o vento, o cio da terra, à flor da terra, à flor da pele.

Essa foi a gota d¿água. E veio a batalha, a caçada na carreira, o desafio do malandro, um murro em ponta de faca, trapaças, piruetas, esconde-esconde, mano a mano, cara a cara, olhos nos olhos, até que na estação derradeira, no brejo da cruz soou a opereta do moribundo... malandro quando morre recebe a última homenagem ao malandro: feijoada completa e uma marcha para um dia de sol.

Eu sou a árvore do fado tropical do frevo diabo, conto a história de uma gata , canto o hino da repressão, imagina só, o hino de duran, o tango de nancy, tango do covil, o xote de navegação na embarcação, sei a receita para virar casaca de neném, danço a quadrilha, realejo, bandolim, piano na Mangueira e ainda escrevo a paródia e o soneto no folhetim. Li o salmo, estive no tablado mambembe, mambordel, no showbizz, e na televisão, em hollywood, no Baixo Leblom, rio 42, tamandaré, e em fortaleza. Eu sou de lábia leve, baticum, cambaio. Meninos eu vi os futuros amantes geni e o zepelim levantados do chão, e o meu caro amigo Léo supõe, vence na vida quem diz sim . Na roda viva da vida, no moto-contínuo da rosa-dos ventos passa o tempo e artista fica. Trocando em miúdos, ainda estamos aí, eu sou o velho Francisco deus lhe pague por me dar ouvidos.


Gregory Grimaud, Luiz Fernando Borges Pereira e Patrick Berlinck

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 10:27 PM
 

ser ou não

não sou ninguém
e não sou eu
não sou você
e nem sou nada
não sou
não sei
não vou

mas sou ninguém
sou eu sou nada
e sou você
e sou sem ser
sem ter
sem ver
sem nada

não sei se sou
não sei quem sou
não sei de mim
perfilho reticências infinitas
meticuloso - ponto a ponto
se me apoquento
esfrio ao vento
me provo e saboreio
quase ao ponto...
ponto

tarciso soprou estas palavras ao vento às 1:29 PM
 

Confesso, Admito e me Redimo ou Universalidade Facultativa*



É difícil admitir que me dei um tiro na cabeça.
O ferimento ainda dói. Depois de tanto tempo em coma continuo sentindo a dor que percorre o caminho que a bala fez até o meu cérebro.
A dor é parte do processo de convalescença, faz parte do tratamento. Mas a dor interna, aquela que agride como mil socos e fere como milhões de agulhas espetadas no espírito não é atenuada por nenhum analgésico inventado pelo homem: a consciência pesada fere mais do que uma bala na cabeça.
O sono não traz alívio , apenas pesadelos . Esta não é a vida que sonhei para mim, uma vida de pesadelos pesados de culpa na solidão da noite.
Eu ficava à noite sozinho na sacada do meu belo apartamento, olhando as estrelas. Eu sentia que o brilho delas era muito superior ao meu, que definitivamente eu não era um professor brilhante.
Observava a noite escura com as estrelas brilhantes, tentando fugir do sono com sonhos ruins que me aguardava. Pensava que eram todas estrelas mortas , que o seu brilho chegava a nós tarde demais. E pensava que tudo o que brilhava era porque estava morto, e se eu não brilhava era porque eu era um homem vivo. Mais havia uma maneira de eu brilhar nas trevas noturnas que eram a humanidade: o suicídio me tornaria uma estrela.
O que é um corpo em coma deitado numa cama de hospital, se não mais pode brilhar, se não mais pode amar, se não pode mais ensinar. O que é? Não é nada.
E mesmo assim eu era um nada digno da atenção de alguém, um padre que me visitava constantemente trajando sua batina negra como aquela noite que eu via da sacada. Eu achava a presença de um padre no momento que antecedia a morte de alguém uma atitude de urubu ou carrasco. Era irônica a visita de um padre carrasco a um paciente recém saído do coma; ou estava ali para fazer a extrema-unção , ministrar o sacramento final a um ateu, ou só serviria para me perturbar . Era engraçado pensar que os médicos vestiam branco para salvar vidas e os carrascos vestiam preto para tirar as vidas. Mas talvez fosse apenas um carrasco visitando outro, para trocar confissões, pensei, sem ter noção de que me aproximara da verdade.
─ Eu confesso que matei a sede por conhecimento dos meus alunos, admito que quase morri para a busca pelo saber , e padeço o coma por não ter feito nada para me redimir destes graves erros.
─ E eu agradeço por você ser um assassino de estrelas, você apagou o brilho nos olhos do seus alunos ao longo de toda a sua carreira. O céu estrelado de estrelas mortas que você vê na noite escura é de sua criação. Eu agradeço por ter criado um céu tão escuro quanto o hábito que envergo.
E ele se foi. Apenas depois descobri que fora visitado e estivera me confessando e conversando com o diabo, vestido de padre ¿ da mesma maneira que a minha beca de professor escondia um ator, um mentiroso.
Ele era o reitor da universidade onde eu ensinara por tantos anos: a Unig, a universidade da ignorância.
Recebendo alta do hospital, retornei para o meu apartamento cheio de bugigangas acumuladas ao longo dos anos recebendo sem merecer o meu salário de professor.
Novamente me deparei com a sacada que me revelara a verdade insuportável, que levara-me no auge do desespero a tentar ceifar a minha própria vida.
Estava totalmente sozinho, e nem mesmo era capaz de me recordar onde estava a minha esposa. Irônico alguém ter tantas coisas mas não ter alguém para dividir. Onde estaria a minha esposa? Qual era mesmo o seu nome, esquecido na amnésia do tiro que eu mesmo dera-me?
Abri o meu armário embutido pois sabia que ele representava o peso do ódio, a cobiça, e a mentira enrustidas em mim. Nele estavam as roupas que usara para me fazer do que não era, os sapatos utilizados para andar por onde não devia, a coleção dos relógios do meu tempo perdido no palco de aula onde era encenada a farsa da minha não-vida. Ali estavam os livros cujos ensinamentos eu deturpara e os cadernos de anotações das mentiras contadas por mim. Havia também uma esfera de cristal, uma bola que fôra oferecida de presente pela minha esposa, e que nunca dera valor. Fui até a sacada.
Joguei as roupas aos indigentes que não tinham o que vestir.
Joguei os relógios aos que perdiam o precioso tempo de suas vidas.
Joguei os livros aos que ignoravam as verdades que eles continham.
Preservei a bola de cristal por algum motivo, eu não entendi o que ela simbolizava para mim. Somente quando esvaziei todo o armário enrustido da minha vida embutida descobri onde estivera a minha esposa: morta no meu armário. Então eu me lembrei do seu nome: Vera. Então eu me lembrei do motivo que me levara a tentar o suicido: eu havia matado a Vera, tinha ceifado a veracidade da minha vida, estava sozinho porque nunca tivera verdades comigo. Então eu me lembrei do que Vera me dissera quando dera-me o presente.
─Esta esfera tem a pureza que quero que você tenha, a transparência da qual você precisa para ensinar... não só absorve, mas também deixa passar a luz através dela, nunca a retendo para si mesma .
No dia seguinte fui até a universidade decidido a falar a verdade aos meus alunos.
Cheguei na sala de aula, onde um sem número de pupilos e pupilas me olhavam...pupilas dilatadas mas ainda havia brilho em seus olhos, o brilho da vida. Subi no palco, e me senti como se estivesse na sacada do meu apartamento vendo as estrelas do universo.
─Vocês são estrelas no céu escuro, nasceram para brilhar em suas vidas ; buscando a verdade, brilharão como estrelas no céu escuro do universo. Nisto consiste a universidade. É facultativo a cada aluno interpretar como quiser a verdade que lhe é ensinada, mas ao professor é obrigatório ensinar a verdade tal e qual ela é, com transparência transmitido a luz do saber . Nisto consiste a faculdade.
Os alunos me ovacionaram, mas eu devia muito mais a eles do que eles a mim. Reparei segurava a bola de cristal em minha mão como um amuleto.
Naquela noite retornei ao meu apartamento de solidão. Fui até a sacada segurando a esfera, para ver as estrelas brilhando mais do que nunca no céu. Eu olhava a esfera, e só podia lamentar por Vera não estar ali comigo.
Mas de repente, senti um toque nas minhas costas, virei-me e lá estava Vera. Com o susto deixei a esfera cair, porém ao invés de se espatifar no chão ela subiu ao céu estrelado e brilhou ao lado das estrelas. Eu havia me redimido, minha alma estava salva.

*

Documento rescrito depois de apagado. Baseado em Confesso Admito e Padeço de FCV, um professor universitário

Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 12:32 AM
 


9.5.03




Delicada mente

Comecei a aprender a arte dos pequenos...
Ter o mínimo de expectativa
para não se frustrar
A arte dos humildes
usar um mínimo de títulos
para ser respeitada
A arte dos sintéticos
aplicar um mínimo de adjetivos
para substantivar a essência
A arte dos pobres
economizar no luxo
para valorizar a qualidade não-paupável
A arte dos sutís
não cair matando sobre quem erra:
deixar que os outros percebam
A arte dos delicados
sair de mansinho quando já é hora
palavras poupadas, mente sã...

CoRa soprou estas palavras ao vento às 8:40 PM
 

O verbo que brigou com a gramática



Você é a minha metáfora de amor... dentro da qual quero ficar elíptico sob os lençóis ,fazendo silepses de gêneros num pleonasmo vicioso repleto de hipérboles até que suspires os seus zeugmas saciada.
É polissíndeto,eu sei mas insisto: você é a minha alegoria, mesmo quando se perde em anacolutos e anástrofes fúteis, confundindo-se em hipérbatos. Contigo eu jamais cometeria uma sinédoque, mesmo que contra mim cometas uma metonímia em um momento de interrogação qualquer em que uma comparação entre mim e outro torne-me um eufemismo .
É hipérbole, dizes, mas o que posso fazer se é o que sinto na gradação dos dias que passamos juntos? Eu exclamo que a amo e você acha ironia e me ataca com antíteses que resultam em convenientes catacreses.
Quando eu lhe presentei com prosopopéias para alegrarem os seus dias,você agradeceu com doces perífrases e antonomáias, que no entanto não me iludiram...havia algo de barbarismo no que você dizia, uma cacoépia quase imperceptível denunciou que um estrangeirismo ameaçava a nossa sintaxe. Mas por você, eu suporto qualquer hibridismo, eu aceito até um solecismo ¿dane-se o que dizem os outros, eles são apenas plebeísmos que só vêem ambigüidade e cacófatos pleonásmicos em tudo.
Desculpe aquela colisão no pretérito imperfeito, mas os meus afixos não são de aço e o hiato daquele italianismo me fez perder a cabeça... e afinal, o que é pretérito é pretérito.
Enfim, Gramática, espero que me perdoe e não me julgue irregular e possamos continuar produzindo o nosso eco por muitos anos...

Sinceramente,
Verbo.


Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 12:34 AM
 


8.5.03

MUNDO RECRIADO


1:1:1
Reorganizara o mundo ao seu bel-prazer, criando novos gêneros literários, novos e maravilhosos gêneros musicais, novas espécies animais e vegetais. Dissera que as notas musicais eram oceanos e vice-versa e, por analogia, alterou o nome das notas musicais para o nome dos mares e vice-versa; assim criou marés-musicais e cada tempestade no mar era uma ópera: imaginou partituras encharcando-se com as ¿virtudes aquosas¿ das novas notas musicais.
1:2:1
Recriara todo um mundo de perfeição e brilho; cujas noites eram vermelhas e os dias azuis e imaginou o que aconteceria durante o eclipse de uma das muitas luas e como seria a visão de um eclipse neste orbe.
1:2:2
(cada bolso em sua jaqueta de couro representa uma verdade que rege a sua vida, e, no interior de cada um, há um objeto que simboliza isto).
2:1:1
E cada imaginação sua equivalia a uma realidade; o oposto também acontecia pois conhecia as quatro letras do sagrado nome.
2:2:1
Andou por sobre as águas e cada uma de suas pegadas formava recifes de corais; entusiasmado, bailou e sapateou sobre as imensidades marinhas, formando ilhas e arquipélagos de rara beleza.
2:2:2
Determinou que, a cada movimento ritmado de sua dança, os ventos formariam-se e seguiriam para sempre o belo padrão de sua dança e soariam em uníssono com as marés musicais, molécula contra molécula, colidindo ou prosseguindo paralelamente, num contraponto natural.
3:1:1
Moveu e teceu as teias das leis naturais com arrojo e destreza e entrelaçou coisas afins e estranhas a si mesmas, criando por mistura e miscelânea. Engastou as rochas e montanhas inteiras e insuflou vida no duro material inanimado; e montanhas moviam-se tal animais e emitiam avalanches-rugidos até o fim de suas existências, quando tornavam-se esculturas imóveis, monumentos à vida.
3:2:1
E os animais não moviam-se: brotavam e floriam em unhas e pêlos, em silêncio imóvel.
3:2:2
Os pássaros voavam nos dias azuis e pousavam em nuvens amareladas e quando gorjeavam chovia.
3:3:2
E os pássaros eram gregários e juntavam-se aos pares de acordo com afinidades.
3:3:3
(a profecia)
E quando todos formassem uma enorme entidade coletiva: e quando ela gorjeasse (miríades de gorjeios simultâneos), um dilúvio musical viria.
4:1:1
E eis que o criador combinou as quatro letras sucessivamente, gerando novas letras mais e mais até obter um alfabeto e guardou-o em seu bolso e aguardou.
4:2:1
E eis que o criador apanhou os frutos multicolores das árvores mais rápidas e fez com que caíssem no mar, formando curtas melodias de vida em germinacão e os frutos brotavam - braços e pernas - e tornavam-se entes dependentes dos acordes do mar (sem os quais não viveriam) e sem tolerância ao balé dos ventos.
5:1:1
O tempo passou e os peixes-fruta aproximaram-se mais e mais da terra e o tempo continuou a passar e alguns adaptaram-se à terra e evoluíram e tornaram-se inteligentes.
6:1:1
Veio o dia e o criador retirou o alfabeto de seu bolso - e o alfabeto tentou segurar-se pois não queria sair - e aguardou.
6:2:1
Alguns assimilaram melhor o alfabeto, assumindo o posto de líderes e o criador escolheu um entre os líderes.
7:1:1
O Um possuía uma cadeia de DNA que resumia todo o mundo e (eis) que era único por isso. E o criador abençoou este peixe com a noção de que o fim viria --quando todos os pássaros fossem um só e entoassem o último cântico.
7:2:2
Aquele peixe-andarilho e a sua linhagem foram profetas até o último dos dias sob o céu azul e das noites de céus vermelhos.
7:3:2
Até que, das nuvens amarelas surgiu um incomensurável som, um gorjeio inigualável, uma tempestade de melodias ensurdecedoras - cortada por solos ferozes - que calou as montanhas e parou as árvores e afogou os peixes sobre a terra.
7:3:3
Todos os livros - que eram confeccionados com a pele das árvores-animadas - ficaram submersos, letras borradas, as idéias nebulosas e todo o conhecimento perdeu-se nos últimos dias do mundo recriado.
Entretanto, o criador sorriu e o seu sorriso determinou que tudo no mundo recriado seria ciclo e assim foi (pois o Peixe-fruta líder, o Um, o primeiro profeta , que possuía a cadeia de DNA que resumia o mundo, foi posto num bolso em sua jaqueta) e o fim apontou para um novo começo.


GREGORY GRIMAUD

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 2:38 AM
 


7.5.03

Once upon a time...



Era uma vez uma menina alegre. Ela era alegre porque as coisas mais simples a deixavam assim. Estar viva era para ela o milagre maior, e por esse milagre ela seria grata eternamente. E por ele, o milagre, era alegre.
Era uma vez uma menina alegre, que apesar dos anos passados, não deixou de ser menina.
Mas o tempo se incumbiu de fazê-la deixar de ser alegre.
E a alegria sua outrora companheira das cantigas de roda, hoje era apenas uma visitante ilustre, que vez ou outra dava as caras. Num domingo, ou feriado santo.
Era uma vez uma menina alegre que se tornou triste.
E a sua tristeza transparecia nos olhos doces, diziam. A menina triste descobriu que era frágil, e que ossos quebram.
Sua visitante ilustre espaçara ainda mais as visitas cada vez mais inoportunas. Não havia mais espaço para ela no seu mundo que de tão vasto e incomensurável limitara-se de súbito às quatro paredes do seu quarto.
Era uma vez uma menina-mulher triste que descobriu que a dor era companheira da melancolia. Essa sim, frequentadora assídua do cubículo no qual seu mundo havia se transformado.
Depois de séculos que não saberia precisar se foram feitos de dias, segundos, meses, minutos ou anos, a ilustre visitante retorna.
- Por que não abres mais as janelas?
- Por que tenho medo.
- Medo de quê?
- De descobrir que posso ser livre.
A visitante não espera a resposta para escancarar as janelas, e partir, da mesma forma que chegou.
era uma vez uma menina-mulher-triste. Parada diante das janelas abertas e querendo descobrir quais são as verdades que existem para ela lá fora.
E quantas delas lhe serão destinadas, e quantas delas serão destinadas a outrém.
Era uma vez uma menina-mulher, que não tinha mais medo.
Era uma vez uma menina-mulher que deixou de ser triste.
Ela passa as noites e os dias com as janelas e as portas abertas, esperando a alegria voltar....

Bia soprou estas palavras ao vento às 2:41 PM
 

Epitáfio de Gregory Grimaud




Nasci da união da mãe beleza e do pai força.
Eu sou a beleza da força.
Fui batizado no fogo das paixões.
Na crisma confirmei a minha fé no vento.
Comunguei no ar que sopra o espírito
Como as folhas secas das árvores, a minha eucaristia.
Confessei as montanhas os meus pecados
E descobri com o eco: as montanhas pecam como eu!
Assim ordenei-me o Sacerdote dos Ventos
Que agitam as águas e formam ondas,
Que levam as terras das planícies, e então
Selei o meu matrimônio com elas:
O casamento das areias com o vento
Que fez de mim - um grão - algo;
Eu sou grão de areia levado pelo vento.
O vento passou, como o tempo.
O vento fustigou a força do rochedo
(fez dele grãos de areia).
O tempo enrugou a beleza
(e fez dela velhice).
O vento, semeado em tempestade,
Ministrou a extrema-unção, e se foi.
Devolvendo-me para o infinito de grãos da praia
(Na praia, no tudo) o grão se converte em nada...




Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 1:03 AM
 


6.5.03

Queria escrever




Queria escrever num instante de histeria, num rompante, queria escrever como se hoje fosse o último dia, queria escrever como o mar azul refletido nos olhos da menina loira sentada nas areias da praia , como um garoto perseguido por três outros e se escondendo num bosque, escrever sem rima e sem métrica, sem gramática ou temas, leve e solto como quem voa ou lê deitado num quarto penumbral iluminado por luz tênue de um pequeno abajur assentado sobre um criado - mudo desgastado ou escrever como e portanto quando e entretanto, em latim espanhol, esperanto, esperando sozinho um ônibus debaixo de chuva, como judeus num campo de concentração, sentado num café amarelado tomando um martini ao pôr do sol de uma sexta - feira da paixão como parentes de luto num cemitério aguardando a extrema-unção diante de um mausoléu como um cordeiro na boca de um leão, queria escrever sobre os quadris requebrando da moça que cruza o seu olhar com o meu e sorri numa rua movimentada num dia ensolarado dourado como quem dobra a esquina e não sabe o que vai encontrar, como uma lagarta saindo da crisálida metamorfoseada em borboleta multicolor deixando para trás o casulo de seda, como quem salta de um lado a outro um abismo olhando para baixo , como um carro esporte vermelho à toda velocidade numa curva na estrada antes de se encontrar com um caminhão, queria escrever como uma adolescente voltando sozinha do colégio à noite e seguida por três homens na rua escura da solidão, como uma prostituta sob um semáforo vermelho sendo abordada por um homem que joga ácido em seu rosto, como um biplano amarelo sobrevoando uma planície florida de margaridas onde passeia uma camponesa vestida de branco, como um mendigo velho barbudo e esfarrapado bebendo cachaça num banco da praça, queria escrever como uma festa de debutante com danças jovens e doces damas, como um antigo álbum de fotografias aberto sobre a mesinha de centro sendo visto pela família reunida, como um mafioso cortando o dedo mínimo e oferecendo ao papa na mesa xadrez de vermelho e branco numa cantina no bairro italiano, queria escrever em mim, fechando o meu corpo tal e qual tatuagem literária como se eu fosse um livro e depois me ler e reler sem parar me parafraseando todo, queria escrever no chão e nas paredes de casa com lápis de cor como uma criança e contar as minhas efemérides, queria escrever como as rugas no rosto de um idoso solitário num asilo vivendo das lembranças de um passado que não volta mais como Cristo olhando da prisão para Pedro enquanto o galo canta três vezes, como uma jovem bruxa ruiva queimando na pira da inquisição, como um herbanário arrancando uma mandrágora na floresta para vende-la em sua banca no mercado, queria escrever como um escriba egípcio contando a história de Ramsés II traído por Moisés, queria escrever como um rabino enlouquecido rasgando o talmude e comendo as suas páginas(prove e verá que o senhor é doce), como uma traça comendo um livro raro numa grande biblioteca, queria escrever como um casal mergulhando sob águas translúcidas de um atol e se beijando em torno de águas-vivas e algas verdes , queria escrever como criminosos cavando um túnel sob o presídio, ou como um presidiário riscando as paredes para contar os dias no cárcere, como uma coruja pousada no muro de um cemitério, contra a lua à meia-noite do 31 de outubro , queria escrever como rastilho de pólvora que leva até um armazém repleto de munição e bum! como um lobo capturado numa armadilha roendo a pata para se libertar, como galos numa rinha na Nicarágua,como céticos agourando a procissão, como cegos pedindo esmolas com canecas de metal como doentes desenganados em macas no corredor de um hospital público, como um suicida escrevendo com sangue a última carta feita de pele humana , ou como um pintor pintando um quadro dele mesmo pintando um quadro,e fazer uma palavra descrever mil imagens, como uma cobra mamando no seio de uma mulher, como uma águia voando entre as nuvens vendo um coelho branco ao longe, como uma jovem cigana lendo a sorte num parque, como um açougueiro fatiando carnes ensangüentadas separando-as dos ossos, como um padre ouvindo a sua própria confissão, como um trem partindo durante uma nevasca e afastando namorados de olhos marejados e corações quebrados, como uma barca cruzando os canais de Veneza levando uma freira, como um monge tibetano entoando um mantra, como uma bailarina sem uma perna dançando sobre o palco, que é o mesmo que Deus escrevendo certo por linhas tortas. Queria escrever como um médium psicografando uma carta do além, como um tatuador, marcando a minha própria pele com palavras indeléveis, como um cirurgião fazendo uma incisão, como um dentista obturando um dente, como um escultor esculpindo, como um adolescente fazendo sexo, queria escrever... escrever como o vento escreve nas areias, como as águas escrevem nas rochas, como o incêndio escreve nas florestas como o rastro ondulado de uma cobra, como pegadas de um tigre... como Deus escreveu a criação no caos, como o sol escreve os seus fachos pela janela na poeira suspensa no quarto, como bolhas de sabão flutuando, como as nuvens escrevem no céu azul. Queria escrever com letras prateadas em folhas negras como estrelas num céu noturno, ou com a minha língua no céu da tua boca, com o meu olhar no seu olhar e com letras digitais na tela do celular, queria escrever sobre o conde de Saint Germain tirando as cartas para Giordano Bruno num bistrô na Baviera queria escrever outrora no outono antes que seja tarde e a estação passe, queria escrever com sementes de árvores no chão e plantar uma floresta poética, esboçar a minha autobiografia com sêmen no útero de uma menina e ver nascer o meu romance, um filho; queria escrever um manuscrito com as minhas garatujas ininteligíveis e desafiar um pesquisador a decifrar garranchos ilegíveis queria escrever um livro de capítulos dispersos na cidade, um capítulo de imprecações sobre o presidente em paredes de banheiros públicos, um segundo capítulo de mensagens cifradas de amor com corretor liquido em pontos de ônibus, um terceiro capítulo em grafites rúnicos no alto de prédios, e um longo capítulo no coração de uma bela mulher.


Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 5:26 PM
 

Voltando
O reflexo incomoda, mas não sei se quero chegar ou seria melhor que a estrada fosse ainda mais longa. Prefiro viajar de ônibus, há tempo para sonhar e planejar, mas aqui com o som alto e de coração acelerado, entre um carro e outro consigo produzir o resto dos meus dias. Decisões inadiáveis, projetos incrementados, resultados que visualizo, melhor do que as luzes que me ofuscam. Trabalho transfigurado em prazer, resultado em realizações, crescimento, tudo pronto, coração acelerado, livre, mas devo diminuir a força do pé que estou indo muito rápido. Alí é tão perto e tão pouco tempo mas a distância é suficiente para recarregar as expectativas. Abastecido de auto-estima avalio cada erro da rotina, reoriento a rota, cada ponto a ser mudado, projetos inadiáveis e tão antigos. Tenho saudade da volta mas um desejo muito maior de um desvio para o retorno. De onde parto é tudo mais completo mas confundo origem e destino. Um momento, já fiz esta viagem, planos sempre protelados, sentimentos que se acomodam como as malas na chegada até a próxima viagem onde tudo recomeça.

Marcelo Soares

Camafunga soprou estas palavras ao vento às 8:39 AM
 

Palavras -chove



Ando debaixo da chuva na noite escura , estou usando óculos , os sapatos e os meus cabelos estão encharcados; olho para o alto e vejo os raios iluminando as nuvens , um helicóptero sobrevoa a cidade como uma libélula de aço; é o dia do meu aniversário, e eu me lembro disso quase por acaso ao ver uma mulher grávida passando ao meu lado. Talvez porque ela fosse parecida com a minha mãe , preocupei-me com sua segurança e pensei o que uma mulher esperando um neném faria andando por aí numa noite escura de tempestade .Talvez ela tenha uma missão, ou simplesmente voltando para casa após um dia de trabalho, porque já foi o dia em que mulheres grávidas não trabalhavam. Talvez esteja se arriscando no concurso da vida, numa loteria de vida e morte, enfim, dando trabalho para o seu anjo da guarda com patentes militares; mas certamente o seu príncipe encantado não apareceria montado em seu cavalo branco para salva-la caso algo acontecesse. Atravesso a rua , olho para a esquerda e para a direita. Vejo um prédio baixo de quatro andares com uma marquise sob a qual um pobre cachorro encharcado como eu tenta se abrigar da chuva; e há também um maltrapilho ao seu lado, mais decadente do que o cachorro molhado, um homem com a cabeça entre as pernas , tentando se aquecer num fogo débil ao lado uma casca de banana e um naco de carne, restos da sua última refeição. Pobre homem, talvez seja uma pessoa deficiente, dizem até que professores, dentistas, inclusive médicos caem na mendicância; muitos afirmam que os vícios como o álcool e o fumo os atiram neste estado, mas eu tenho uma teoria diferente: a sociedade os atira neste estado e o álcool e o fumo são apenas rotas de fuga, passagens de emergência para os jogadores perdedores . De uma janela do prédio um japonês chupando um sorvete me observa como se eu estivesse nu, como se fosse eu o estrangeiro, mas tenho certeza que ele tem um espelho em casa e por mais cara de cubano ou judeu ,quem sabe, que eu tenha, não sou uma figura tão estranha para ser observado assim. Distraio-me, e caio numa piscina formada num desnível da rua - abastecida por uma cachoeira vinda da rua que a corta - , eu vejo uma seringa de injeção usada boiando, mas, felizmente ,uma onda a varre para longe. Bato a mão no bolso: a minha chave sumiu, levada pela enxurrada, e não adiantava procurar naquele mar de lama que poderia até esconder um destes jacarés do tipo que as lendas urbanas dizem vagar por aí. Eu me desespero por um instante, se tivesse um carro isto nunca teria acontecido...olho para o alto e o japonês está sorrindo como se tivesse gostado do que viu. Ao meu lado um telefone público toca, por impulso eu o atendo e uma voz gargalha , olho para a janela e vejo o maldito japonês ao telefone e, por um momento, apenas por um momento, imagino se a chuva, a mulher grávida, o cachorro, o japonês chupando sorvete se tudo é uma armadilha para no dia do meu aniversário perder as chaves de casa.

Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 1:21 AM
 



"Sorrir
quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
os teus dias
tristonhos vazios
"

E me pegou assim de surpresa. A música que vinha do rádio nem sabe o quanto me toca.
E fui e vim. Fui e vim e fui e vim e fui tocando em frente sem nem me dar conta o quanto me era bem vindo o sorrir que, dá música, vinha. Saí então sorrindo e vindo e indo.
Quando daqui saí, saudades sentí e quando de lá me vim, saudades de lá carreguei. Que vida essa da gente que vive dizendo adeus. E pedindo a Deus pra não mais tirar da gente tanta gente...

"Sorrir
quando tudo terminar
quando nada mais restar
do teu sonho encantador
"

Sento e penso em escrever, e escrevo! O que pode acontecer agora? Nada. Tudo. Uma ou outra. Nada ou tudo.
O que quero que aconteça? O nada ou tudo?
O tudo.
Quero que aconteça o tudo e porque será que a palavra aconteça insiste em sair errada. Porque o aconteça vem com erros. Por quê não acontece certo?
Tudo ou nada?
Tudo.

"Sorrir
quando o sol perder a luz
e sentires uma cruz
nos teus ombros
cansados doloridos
"

Dois, Três e mais mundos se confundem ou não se confundem. Mundos são mundos e não há razão pra confundí-los. Mundos nem são tão assim...simples.
Eu, simples que sou não me entendo bem.

"Sorrir
vai mentindo à tua dor
e ao notar que tu sorris
todo mundo irá supor
que és feliz
"

E o Waly Salomão resolveu ír embora pra sei lá onde. Foi-se e ficamos nós, apenas com suas palavras. Perdemos a sua interpretação o que nos leva a colocar a nossa em jogo. É muito mais difícil interpretar-mos. Mas a vida é assim...uma interpretação de nós mesmos com a ajuda dos outros. Waly anda por aí. Porque:

"Vale a pena ser poeta.
escutar você torcer de volta
a chave na fechadura da porta
Abra, volte, veja
Sou um cara sem saída
Mas não se iluda com essa minha vida
..."



Antonio Esperança

soprou estas palavras ao vento às 12:57 AM
 


5.5.03

Há os que escrevem muito
e pouco traduzem o sentimento cru
Há os que pouco escrevem
e comovem a cada palavra
Há os que escrevem bem
Há os que nasceram prá escrever
Há os que escrevem por instinto
e assinam obras, sem saber.

Eu recomendo a leitura DESTE BLOG
escrito de maneira singular, despretensiosa,
mas naturalmente "iluminada"...





CoRa soprou estas palavras ao vento às 11:28 AM
 

Ágata de A à Z



Amei ávido Ágata de A à Z,
ardorosamente apaixonei-me por Ágata.
Andei em meio a amarantos atinando andanças,
arvorei andanças arredio do ártico ao antártico.

Busquei no bê-á-bá dos becos
burilar beatitude em belvederes;
Bebi em bares e bibocas;
Belchior benzeu-me num bazar.

Caminhei contrafeito contornando crises;
Conheci crivos e criptas, covas,
coptas e confrades, corvos e covardes;
Copiei o colofão de um carcomido calhamaço.

Doutor dos débeis do devir,
deidade dos deuses desacreditados,
desvendei delicadas demonstrações de desprêzo;
Dei-me por mim, dirigi-me doravante.

Erigi estátuas estéreis, e
estandartes esplendorosos no este.
Escrevi estórias e entretive-me no Érebo;
emergi em meio aos eclesiásticos e escolásticos.

Faias forravam a frente da fazenda Fauna e Flora;
flagrei-me fitando o feitio de minha fronte em fontes;
falei de falhas e falcatruas aos frades da Filadélfia.
Feneci, formei-me em freixos frondosos.

Galguei grotas onde germinavam gramíneas
garantidas por suas glumas; girei em gírias,
granjeei os gracejos de Ágata, a gata:
gamei por ti numa gôndola em Goa, gozando dos gongóricos.

Hauri haxixe num habitáculo hediondo,
honrando a hecatombe dos hebreus;
Heurística e hermenêutica usei no haikai,
homenageando homens-hienas.

Imiscui-me em intrigas imorais;
Imolei ignaros e ignavos em igrejas;
Imergi em igapós e imigrei para ilhotas,
istmos e itaocas; iludi imortais ínclitos.

Jacente em jacarandás, na jangal um joá;
Jurei com júbilo fazer jus ao
jugo do juiz janota;
Jornada juramentada, jubiloso jubileu.

Lamentei lúgubre o levante em Lemúria;
Lembrei-me da loira ao ler um livreco;
Livrei-me lívido de ligações libidinosas;
Longe levo-me, livre da loira.

Mas na mata mesmo mimetizando,
menosprêzo dos meus meios,
murmúrios nos muros minuanos;
Morenas no mar de mel, milenares mulheres.

Nadei no néctar de nenúfares,
no nu da noite nevoenta,
no norte nimbar, noiva a ninar;
Nessoutro nigromante, ninfa nívea.

Outrora orgíaco ogro oprimindo
orbes orgíacas, ora obras, opúsculos;
Ofiófagos do Oeste, n`olho d`água
olheiros de olfato, orelhas e oligoquetas.

Parti pelas pradarias pardacentas,
predestinado paladino, pedra preciosa,
pretendente punido, perdido, pelado, proibido.
Pássaro preso, pégaso pêgo, páginas puladas.

Quisera querer querelas,
queimado por quimeras em
quermesses no quartel;
Quarta-feira, quinta-feira, quantas feras!

Rumas de ratos, roendo ruivas, reinando;
réstias rancorosas, Rômulo e Remo em Roma.
Ramos e restos de romãs,
reergui-me rápido e retruquei:

Sou senhor da sorte lançada,
sedutor das selvas fechadas,
salvador das senhoritas segregadas,
singrador dos seixos sulinos.

Trocei de tartamudos taciturnos;
Tropecei em troncos na Tasmânia;
Tracei tímidos traços na terra,
trilhas trípticas nas trevas.

Urrei no umbral húmido,
último Ulisses ufanista,
urge, ultimatum úmblico,
utopias e urros em uníssono:

Vi, vim, verifiquei vivo,
volto vitorioso de viagens vãs,
veios e vargens, vazantes, vejo você, virgem.

Xadrez xucro de ximangos e xexéu;
Xeque, um xis, xifóide, no xifópago;
Xucro xodó, xingando pelo xilofone.

Zarpo, trotando o zaino, zanzando ao zéfiro,
zêlos de um zé-ninguém,
zênite e nadir, zumbi do zodíaco
zunindo na zumbaia, por ti Ágata de A à Z.


Gregory Grimaud

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 3:38 AM
 


4.5.03

O poder do silêncio




Admiro o silêncio como quem admira uma tela em branco. Como uma tela em branco que guarda em si todas as cores , o silêncio guarda em si todas as possibilidades de sons, do sussuro ao grito, da folha caindo ao terremoto. O silêncio se situa entre o fim de um eco e o auge de uma algazarra cacofônica em uníssono. O silêncio é o murmúrio de Deus, mas também é o suspiro do Demônio. Antes de um trovão, o silêncio é palpável. Em meio à multidão, o silêncio é invisível. Numa biblioteca, o farfalhar de páginas pode ser ouvido; numa boate, um tiro pode ser ignorado. No barulho, o som baixo é um silêncio. No silêncio, um som baixo é um barulho. É o silêncio que forma palavras, e também é ele quem as dispensa: o silêncio fala muito numa imagem, porque as imagens valem mais do que mil palavras. Mas o silêncio fala pouco nos livros porque as palavras escritas preenchem os espaços vazios - silêncios com palavras - sons. A palavra escrita é som em potencial: se lida em silêncio, ela rompe o silêncio interno, da mente: se lida em voz alta, a palavra rompe o silêncio externo , do ambiente. Em meio a uma conversa, o silêncio é perturbador; num cemitério à meia-noite, ele é desejável; para o músico, é o seu instrumento de trabalho; para o mudo, é uma imposição à sua expressão; para o surdo, é a ausência de impressão; e é por isso que os escritores são os oradores do silêncio. Para quem quer dormir, é necessário que ele seja mantido; para os que querem acordar, ele deve ser rompido. O silêncio pode significar extremos: algo de muito ruim ou de muito bom; para um casal, o silêncio é o excesso de amor ou a falta dele. Para uma flor, o silêncio é vida; para um pássaro, é a morte. Para um falastrão, é uma dívida; para o gago, é um alívio; para o político, é uma derrota; para o palestrante, uma vírgula; para o sábio, uma meditação; mas para o ignorante, o silêncio é um castigo.


Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 2:00 AM
 

Motel palácio II



Bocas que se beijam são bocas que se calam. Olhos então se fecham e nada vêem: o amor cega a razão. As mãos se entrelaçam como que querendo soldar a relação; mãos dadas não trabalham, nada escrevem. Somente as musas distantes inspiram .

Corpos que se movem fazendo amor não se locomovem. Vem e vão, vão em vão. Para um lugar que nunca chegam porque nunca saíram do lugar.

O calendário é um triste lembrete de que as contas vencem mensalmente. Elas nos vencem mensalmente.E no fim das contas, só haverão contas.

Traições são ações mentirosas. Tentativas de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Tempo perdido, quando há flagrante.

O tempo passa, a noite avança. Quem espera a noite passar sozinho, sempre alcança um amanhecer triste.

Gregory Grimaud soprou estas palavras ao vento às 1:33 AM
 


3.5.03

O centro de todas as coisas



Onde estiver é certo que lá estarei eu. Sonhei com ele.
E chegando lá, ao me deparar com todas as coisas que são de fato importantes, a mim me encontrava. Um lugar bem guardado e rodeado por torres majestosas, guardado por cavaleiros da guarda real. E o rei, o detentor de todas as verdades. Ele está no centro de tudo. Saberia ele de mim então? Conhecedor de todos os mistérios, sabedor de todos os segredos?
Atento às necessidades dos súditos, preocupado com suas mazelas e desvelos. Sem bobos da corte, e sem algozes. Apenas o trono, e o Rei. O Rei, no centro de todas as verdades. Quem quiser saber de todas, que dirija-se à ele.
As paredes do castelo são escritas a cinzel, pedra por pedra. Pode-se ler a história das verdades e mentiras, passeando as mãos sobre elas, como fazem os cegos. São verdades que não se vêm, apenas se sentem. Logo na entrada, do lado direito, uma fonte de água pura , de onde podem beber todos aqueles que têm sede. Do lado de fora, uma fila se forma e eu pergunto o porquê.
Há o intérprete, que vem de quando em quando, e traduz em palavras que as pessoas entendem, aquilo que as pedras dizem e muitos não podem compreender. As pessoas se enfileiram e aguardam, para que lhes seja dito. Uma a uma.
Procuro minha pedra naquela parede. E descubro que ela não está lá. Assustada, pergunto ao Rei se por não existir tal pedra, haveria eu também de não existir. Ele então sorri, e em sua voz suave me diz que devo tê-la carregado comigo e depositado em algum lugar. Disse-me ele que algumas pessoas carregam suas pedras consigo, e se encarregam elas mesmas de escrever ali os seus caminhos.
Permaneço imóvel e confusa. Para quê precisaria eu de um intérprete, para aquilo que eu mesma escrevi?? Não preciso.
Abaixo-me e estendo o braço, correndo os dedos sobre as pedras onde piso. As verdades que escrevi ao longo do caminho, a cada passo dado.
De súbito a luz que invade o quarto.
O despertador toca, e tão certo como estou aqui, são as verdades que aprendi de mim.

Bia soprou estas palavras ao vento às 2:01 PM
 

POROROCAS

(eliane stoducto)

Os prazeres do corpo
adoçam, alegram, cicatrizam.
Abaixo diques, represas!
Sinto o temporal caindo
no deserto. Secreto.
Liberando sumos. Virando Amazonas.
Abaixo a aridez!
Meus fluidos correm livres outra vez!
Quero foz, quero delta, quero muitas pororocas!
Quero muito! Quero mais! Do bom e do pior!
Quero aprender, crescer, evoluir
como a Mocidade na Sapucaí!
abraçando generosamente tudo que me cabe:
o ruim e o melhor! Sem restrições.
E poder finalmente concluir
que tudo depende do ponto de vista,
que são muitos, que são mis.
Abaixo maniqueísmos! Abaixo racismos!
Vivam os quereres! E os amores! E os desamores!
Mentes míopes, empoeiradas,
hipermétropes e cansadas
pouco podem perceber!
Visão estreita. Mente estreita.
Estreito é o nosso olfato, o nosso tato.
Faixas limitadas. Limitadíssimas.
O corpo é o limite! Socorro!
Quero jogar tanto xadrez quanto porrinha.
Admirar Picasso e Newton Bravo.
Me deliciar com adoçante, sal marinho,
fel e açúcar mascavo.
Quero amar o ateu e a freirinha.
O belo e o feinho.
E amar. E ter prazer. E transcender.
O limite...

Li Stoducto soprou estas palavras ao vento às 12:52 AM
 


2.5.03



o vento que me traz você
é feito de pura saudade...
morno, carregado de cheiros e desejos
me trazendo cenas
que nesta distância imposta,
chega a ser maldade.

CoRa soprou estas palavras ao vento às 10:10 PM
 

vento (e chuva) no litoral

sentado à orla olhando a chuva
com o peito dilatado de saudades
deixei que as águas cadentes
molhassem meu corpo quase tiritante
quisera teu aconchego e companhia
e mergulhar em conversas amenas
defronte a uma lareira imaginária
mas tua presença fria só maltrata
miro de relance um teu olhar ausente
e almejo advinhar os sentimentos
que o teu semblante de esfinge oculta
mas a mágoa que trago aqui no peito
cria sombras indecifráveis e visão sombria
então quedei-me inerte ali por muito tempo
minutos, horas, uma eternidade
nem percebi minhas roupas secaram
você não estava mais comigo, mas fiquei
até sentir a umidade das gotas de sereno
a lamber meu rosto ao fim da tarde
e uma réstea de sol esmorecido
acenando ao meu coração aflito
me sinto tão humano nestas horas
embora refém de alma melancólica
reflito só, enquanto observo distraído
a beleza indiferente do ocaso
palmeiras açoitadas por ventos fugidios
e a grande bola vermelha
que se esconde preguiçosa no horizonte
em promessas de breve retorno
comigo, contigo, sozinho
como todos os dias que sucedem

tarciso soprou estas palavras ao vento às 6:11 PM
 

"(...)
Fuja,
Se você tem medo
Se mesmo sendo cedo, essa é a solução
Finja,
Quando quiser enganar ou mesmo dissimular alguma situação
Grite,
Se quiser gritar, se é só pra aliviar, grite logo então
Então morra,
Mesmo sem querer
Ou, se você quiser, com suas próprias mãos."

Fuga. Nos meus sonhos é assim, uma constante fuga. Certamente um reflexo d